quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Relato de Parto da Larissa e da Isabela

Relato de parto Isabela
O texto de hoje é longo e demorou a sair, mas eu não poderia escrever sobre um dos momentos mais marcantes da minha vida de forma superficial, sem tentar aprofundar nos significados pessoais e na forma como minha alma sentiu essa experiência. Resolvi escrever esse relato relacionando-o a um outro momento da minha vida, pois na minha forma de enxergar as vivências, ambos estão muito conectados.
Antes mesmo de engravidar, li vários relatos de parto e todos eles foram de extrema importância para a construção, no meu imaginário, do meu próprio parto. As experiências e o apoio que recebi de mulheres próximas também foram essenciais. Gostaria de dedicar esse relato a todas vocês, em especial à minha mãe, Kátia e a Anne Kelly e Karen. Imagino que você, Karen, não tenha nem noção disso, mas foi a sua experiência que plantou a sementinha do parto humanizado no meu coração. E sou tão grata a isso que se minha experiência puder também ser uma sementinha a pelo menos uma mulher que consiga viver o parto de forma tranquila e sonhada, me sentirei ainda mais feliz.
Voltando às vivências, em janeiro de 2014, eu e Eduardo fizemos uma viagem para conhecer Machu Picchu. Estávamos semi sedentários na época, mas estávamos com muita vontade de fazer a trilha inca. Optamos pela trilha inca curta, em que, em um dia caminharíamos por cerca de 8 horas, vencendo degraus de pedra em meio à floresta amazônica e numa altitude que não estávamos acostumados. E fomos em um período de muita chuva...
Acordamos às 03:00 da manhã para irmos até uma estação ferroviária, onde pegaríamos um trem que nos levaria até o início da trilha. No meio do caminho o trem parou e ficamos esperando por aproximadamente 40 minutos, sem saber o que estava acontecendo. Passados os 40 minutos fomos informados que, devido às chuvas, havia ocorrido um deslizamento de terra e o trem não poderia continuar, mas que nós poderíamos caminhar por cerca de 2km seguindo os trilhos até chegar ao início da trilha. Ao chegar ao início da trilha esperamos por mais ou menos uma hora até os guias começarem a chegar, pois eles estavam se informando se havia condições de realizarmos a caminhada. Com essa junção de fatores iniciamos nossa caminhada por volta das 09:00 e, com isso, já sabíamos que demoraríamos mais que o previsto para concluir a trilha.
Nos primeiros quilômetros da caminhada aconteceu algo que me marcou e que me fez contar essa história junto com o meu relato de parto. O nosso guia e Eduardo iam conversando e caminhando rápido à minha frente e eu comecei a ter taquicardia, por causa do esforço somado à altitude. Nesse momento eu não consegui falar para eles pararem (minha voz não saía), então entrei em pânico e fui caminhando (quase desmaiando) e chorando atrás deles. Nisso o Eduardo olhou para trás, viu meu desespero e parou pra me acudir. No que paramos e esperamos alguns minutos, minha taquicardia foi passando e eu comecei a me sentir bem de novo. Nesse momento eu percebi que não precisava me desesperar, era só seguir o meu ritmo e os sinais do meu corpo que chegaríamos lá, mesmo que demorasse um pouco mais. Segui focada nisso e mais ao final da caminhada, era Eduardo quem pedia pra parar na maioria das vezes, rs.
Enfim, concluímos a trilha no nosso tempo, sem termos nos preparado antes e com as intercorrências devido às chuvas, e a sensação de desafio vencido somado à beleza da vista, é indescritível.
Em janeiro de 2016, assim meio despretensiosamente, veio o positivo tão desejado. Logo comecei o pré-natal, os cursos e os encontros com o Humanize. Já sabia que queria um parto natural e sabia que teria grandes chances de ser respeitada e acolhida por essa equipe linda.
Nesse momento peço licença para me referir ao Dr. André Gervásio apenas pelo nome. Eu e Eduardo respeitamos muito os seus anos de estudo e dedicação à medicina, mas o temos como um amigo e acho mais pessoal chamá-lo simplesmente por André, se não se importa. E se é pra desmedicalizar a gestação e o parto, façamo-lo através das palavras, hehe.
Na primeira consulta, André fez uma comparação entre o parto e uma maratona (https://www.facebook.com/brauliozorzella/posts/1705752546351482). Como eu detesto correr eu substituí a ideia da maratona por trilha, especialmente pela experiência que eu tinha tido. Eu pensava “assim como eu fui capaz de fazer a trilha sem ter me preparado direito, imagino que eu também seja capaz de parir sem muito preparo, meu corpo foi feito pra isso”. Mas claro que eu sabia o quanto o preparo era importante.
Esse preparo físico e emocional, sempre foi incentivado e até cobrado pelo André. Uma das formas de preparo indicadas por ele foi a leitura do livro Parto Ativo (eu encontrei aqui - http://www.ilithia.com.br/pro…/livros/livro-parto-ativo.html), que é excelente. Aliás, se você estiver em dúvida se a equipe que a acompanha durante pré-natal é mesmo humanizada, leia o livro e pergunte para seu médico se ele também já leu. Estude muito e questione sempre.
Outras formas de preparo para o parto foram também a prática de atividades físicas, e principalmente o preparo emocional. No meu caso, todo o material que eu já vinha estudando antes da gravidez, os encontros e conversas com a equipe Humanize, suas gestantes e puérperas, a prática de pilates e as aulas de dança materna para gestantes foram essenciais. E aqui cabe a minha eterna gratidão a três mulheres que foram anjos da minha gestação: Leticia, doula, Luciana, professora de pilates eFarid, professora da dança materna! O trabalho de vocês é excelente, mas muito mais importante que o trabalho em si, o amor com que vocês o fazem, emanando lindas vibrações para mim e minha família... não tenho nem como descrever quão feliz me sinto!
Tive uma gestação super tranquila.. Tão tranquila que durou 41 semanas e 5 dias. O primeiro sinal da chegada da Isabela (a perda do tampão mucoso) só apareceu quando eu já estava com 40 semanas e 4 dias de gestação. Depois que saiu o tampão eu comecei a sentir uma ou duas contrações ao longo do dia, todos os dias, mas nada de engrenar. Eu que desejava parir um bebê empelicado, agora já torcia para a bolsa romper e assim entrar em trabalho de parto.
Com 41 semanas e 4 dias de gestação (27 de setembro) tive minha última consulta. O quadro continuava o mesmo e André, pela primeira vez fez um exame de toque. Eu estava com 1,5cm de dilatação e colo quase 100% apagado. Durante o exame ele fez um descolamento de membrana e eu não achei dolorido, senti apenas um leve incômodo. No mesmo dia cheguei a sentir algumas contrações, sem ritmo ainda.
No dia seguinte (28 de setembro), às 05 horas da manhã, aproximadamente, acordei com uma contração e não consegui dormir mais. Finalmente elas estavam ritmadas. Após alguns minutos Eduardo acordou e eu pedi pra ele começar a contar as contrações no aplicativo – 10 a 12 minutos entre uma contração e outra. Como o intervalo estava grande, fui tomar um banho pra ver se as contrações paravam. Debaixo do chuveiro elas não pararam e veio o pensamento “é, parece que estou em trabalho de parto, mas pelo visto saporra vai demorar pra caramba... se eu estivesse no hospital agora talvez eu pedisse uma cesárea” pouco antes de respirar fundo e pensar “mas calma, esse é só o começo da trilha, na hora certa você terá sua linda vista lá de cima”.
Saí do banho e tentei tomar café da manhã, nisso veio o primeiro vômito. Desisti de comer, parei de responder o Whatsapp, pedi pro Eduardo avisar minha mãe que eu estava com algumas contrações e depois colocar o filme Wild (Livre) para assistirmos. Nós já havíamos assistido ao filme e eu havia dito ao Eduardo que queria assisti-lo novamente durante o meu trabalho de parto. Isso porque ele conta a história de uma mulher que – adivinhem só – supera vários desafios físicos e emocionais ao longo de uma trilha que ela percorre sozinha atravessando os Estados Unidos. Inclusive algumas músicas do filme também estavam na minha playlist de parto. Pensado bem agora, acho que fiquei meio obcecada com essa história de trilha... kkkk. Mas se estava dando certo que mal havia em continuar com essa “obsessão”.
Eduardo colocou o filme (fomos assistindo pausando a cada contração) e avisou a Letícia sobre a situação. Ela disse que viria me ver depois do almoço.
Letícia chegou por volta das 13:30, ficou conversando conosco e tentou fazer com que eu comesse algo, mas tudo que eu colocava na boca eu vomitava. Por volta de 15:30 ela falou que a presença dela naquele momento não estava ajudando muito, se eu achava melhor ela voltar mais tarde. Eu disse que sim. Nesse momento as contrações estavam com 5 a 8 minutos de intervalo entre elas.
Enquanto Letícia ficou em casa eu fiquei ouvindo a playlist que eu havia preparado (e indo pro chuveiro vez ou outra), mas pra falar a verdade, a playlist rodou duas vezes e eu me lembro de só ter ouvido realmente duas músicas: Ave Maria, que fortaleceu a minha fé e Breathe (2 AM), que me fez lembrar de respirar direito.
Depois que Letícia saiu eu fiquei cochilando entre uma contração e outra até às 18:30, hora que Letícia voltou, dessa vez com o André. Ele mediu os batimentos cardíacos da Isabela e estava tudo bem. Depois ele e Eduardo foram conversar na cozinha e eu fiquei com a Letícia na sala. Às 20:00 André foi embora de novo. Depois Eduardo me contou que o André o chamou na cozinha pra dizer que ele achava que eu só pariria no dia seguinte e que era pra ele tentar me fazer descansar. Sem que o Eduardo dissesse nada eu voltei a cochilar entre as contrações.
Passou-se muito pouco tempo e eu senti algo molhado entre minhas pernas (a partir desse momento eu já não tinha mais noção de horas ou do intervalo entre uma contração e outra). Corri pro banheiro achando que era a bolsa mas era o tampão novamente. Dessa vez um senhor tampão! Voltei pra sala e depois pro banheiro de novo, dessa vez pro chuveiro. Acho que antes das 21:00 Letícia liga pro André e pede pra ele voltar porque eu já estava eliminando fezes. Engraçado que eu temia esse momento, mas quando chega nesse ponto você não sente vergonha de mais nada, sente até uma certa euforia por se ver dominada pelos instintos que trarão seu bebê à luz. Eu que falo baixinho, nessa hora gritava sem pudor.
André chegou e fez mais um exame de toque, foram só dois durante toda a gestação, e em seguida disse para irmos ao hospital, eu já estava com 9cm de dilatação. Chegamos ao hospital, não sem antes dar bons e sonoros gritos no hall do meu prédio, esperando o elevador; no estacionamento do prédio; dentro do carro; na cara de um senhor na porta do hospital e no corredor do hospital. E me lembro de ter achado todas essas situações divertidíssimas! Seria isso a partolândia? Hehehe. Chegamos às 22:14 e fui direto para um quarto, que permaneceu com a luz baixa durante todo o tempo.
Durante todo o trabalho de parto eu adotei a posição ajoelhada ou semi ajoelhada com a barriga inclinada pra frente, cheguei até a ficar com os joelhos doloridos no dia seguinte. No período expulsivo não foi diferente e continuei ajoelhada em cima da maca, que havia sido encostada na parede pelo André, para que eu me apoiasse. Também cheguei a usar o companheiro chuveiro uma última vez antes de parir.
Estava na maca quando comecei a sentir o círculo de fogo e sentia minha filha ganhando aos poucos cada centímetro de sua descida. Quando André viu a cabeça saindo ele perguntou pra Letícia a que horas a bolsa havia rompido e ela disse que não havia rompido. E minha filha nasceu empelicada como eu havia desejado! Eu não cheguei a ver a bolsa, porque havia muito mecônio e André acabou rompendo-a para limpar seu rostinho. Mas Eduardo, que antes da gravidez se impressionava com qualquer imagem de parto, se agachou para acompanhar com os olhos todo o nascimento da nossa pequena.
De repente eu parei de sentir dor, olhei para baixo e vi um pezinho, quase não acreditei que ela já estava do lado de fora. Depois André a virou e a colocou mais pra frente para que eu pudesse pegá-la. Isabela nasceu às 23:37, veio pro meu colo e mamou logo de cara.
Depois de um tempo, que eu não faço ideia de quanto tenha sido, Isabela foi levada ao berçário e Eduardo a acompanhou. Nesse momento André avaliou a placenta e viu que estava solta, ainda dentro do útero, deu um puxãozinho e ela saiu. Letícia fez um lindo print para guardarmos de recordação. Depois André fez uma sutura (com um ponto apenas) na laceração natural de períneo que eu tive e Isabela voltou pra ficar juntinho da gente. André e Letícia me ajudaram a tomar um banho, depois eu lanchei e queria ficar conversando, sem me dar conta de que já passavam das 02:00 da manhã... Continuava numa euforia danada!
Custei a dormir, inundada por tantos hormônios de amor e tanta felicidade. E tenho certeza que tanto respeito ao nosso nascimento (eu e Eduardo nascemos como pais também), tanto amor que eu senti e recebi da minha filha e do Eduardo, só contribuíram com todo esse sentimento lindo.
Realmente o preparo emocional foi muito importante. Se o trabalho de parto foi longo é porque eu sempre me conectei a qualquer alteração em meu organismo e comecei a sentir as contrações desde o comecinho. E eu deixei elas virem... me entreguei a elas como se fossem ondas trazendo o meu bebê. Em nenhum momento quis desistir, pedir analgesia ou cesárea. Em nenhum momento eu duvidei que meu corpo era capaz. Em nenhum momento houve desespero ou medo. Houve dor, e eu me lembro de ter achado que todas as mulheres que diziam que o parto era maravilhoso só podiam ser doidas... mas deve ter algum hormônio que deixa a gente meio doida mesmo, porque depois de um mês eu já estava com saudades do meu parto e sentia vontade de passar por tudo de novo, kkkk.
E assim foi o dia que mudou todo o resto da minha vida! Não tenho nem como nomear todas as pessoas a quem sou grata pela vivência desse momento tão incrível! São tantos amigos e parentes, irmãos de sangue e de alma que, de uma forma ou de outra, me ajudaram a construir os meus referenciais de maternidade. Àqueles, que sendo pais ou não, apoiaram e respeitaram as nossas escolhas e nos amaram incondicionalmente, a minha eterna gratidão. Obrigada Eduardo pelo marido e pai maravilhoso que você é, por gestar, parir e maternar tão lindamente junto comigo! Obrigada filha por me ensinar tanto a cada dia, principalmente com relação à grandeza e infinitude do amor! E principalmente obrigada Deus por essa oportunidade de luz em minha vida...












sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Relato de Parto - Nascimento do Francisco!

Aí bateu aquela vontade danada de escrever sobre esse momento lindo e louco que foi meu parto… Então senta que lá vem textão ou exerça seu sagrado direito de pular esta publicação. Não, não vou resumir, já viu algum bacharel em direito resumir algo? Quer uma resumo? Conversa com o papai engenheiro.
Dia 23 de setembro começou cedo para mim. Às 4 horas da madrugada acordei com contrações, fracas e espaçadas. Como eu estava experimentando contrações de treinamento com frequência desde o início do último trimestre não dei lá muita bola não. Lembro de ter pensado que um banho quente ia espantar aquelas dorzinhas rapidamente, mas não quis levantar para não acordar o marido e, bem, 4 horas da madrugada não é hora de levantar, é hora de dormir né? Lá pelas 7 e pouca da manhã, já com o marido acordado (eu só tinha conseguido tirar uns cochilos) resolvi levantar e tomar o bendito banho – que não ajudou em quase nada. Lembro de ter dito pra João que fosse trabalhar em paz, que era um alarme falso. Realmente não estava preocupada, na quarta da mesma semana eu tinha tido pré natal e Dr. André Gervásio me disse exatamente o que eu estava sentindo: Francisco estava “alto” no útero (eu sentia como se ele estivesse nas minhas costelas) e não havia sinal de parto pra perto. Lembro até de desabafar com Bruna Da Costa Machado Vogas e Valéria Cardoso Delesposteia que achava que ia ficar com aquela barriga para todo sempre rsrs. Enfim, juro que pela manhã, mesmo sentindo contrações desde a madrugada não achei nada demais.
Aí o dia foi transcorrendo normalmente, ao meio dia as tais contrações ainda não haviam me deixado e eu comecei a achar que podia ser algo, mas ainda não dei tanta bola, só pedi ao marido que viesse me buscar pra almoçar, não achei conveniente dirigir assim. Na volta do almoço João Paulo Manhães pediu para trabalhar home office e me fazer companhia. Eu cheguei a dizer pra ele que aquilo não devia ser trabalho de parto, simplesmente porque era fácil demais. Eu mesma ainda cheguei a trabalhar um pouco utilizando o sistema eletrônico do tribunal. Mas aí as dores não iam embora, eu comecei a usar a bola pra aliviar e achei que era uma boa ligar pra linda doula Leticia Pimentel Andrade Andrade. Ela me orientou a ir um pouco mais cedo pra oficina de belly mapping, para que Dr. André desse “uma olhadinha” em mim.
Cheguei lá no consultório mais ou menos uma hora antes da oficina. Aqui em casa já havíamos começado a marcar contrações, mas estávamos super calmos. Chegando lá encontrei André e Letícia que foram super fofos e amorosos como sempre. Acho que pela minha calma ninguém confiava 100% que eu estava em trabalho de parto (a mais convencida era Letícia, mais convencida que eu rsr). Resolvi ficar para a oficina e João foi para uma reunião de trabalho (sim, era esse o nível de calma). Aliás, ficar para a oficina foi uma fase linda do parto. Sentir o aconchego do grupo de gestantes, ter a barriga desenhada entre uma contração e outra pela doula tão querida, ouvir Dr. André fazendo palhaçada, tirando fotos e medindo o batimento cardíaco dos bebês. Ah! E teve também fotos maravilhosas da Sandra Rodrigues. Enfim, mesmo tendo feito a Letícia parar o desenho mil vezes para eu me acomodar durante as contrações, não consigo imaginar maneira melhor de entrar em trabalho de parto do que estar com Humanize Macaé: foi de uma paz perfeita.
Ao final da oficina, João foi me buscar e fomos para casa. Isso era umas 19hs. Lembro de ter chegado a casa em meio a uma contração (nessa fase já estava sim ficando mais difícil). Quando a bendita passou lembrei que não comia nada desde o almoço e fui para cozinha pegar um suco de açaí, nem bem tomei dois goles e lá veio uma contração mais forte, ajoelhei no edredom que João já tinha estendido para mim e senti minha calça ficar toda molhada. Lá tinha ido o tampão e pelo menos uma parte do líquido da bolsa. Aí sim, a coisa ficou séria: fui direto para o chuveiro e, debaixo da água quentinha, procurei aceitar a dor. Ficamos lá, eu e João, por algum tempo, até que pedi que João chamasse Letícia e André porque já sentia que o processo estava se adiantando, os intervalos já estavam se reduzindo e tava ficando difícil de descansar entre uma contração e outra.
Aí as coisas começam a embolar. Lembro que quis sair do chuveiro e ir pra cama (queria muito poder recostar em algo macio no intervalo das contrações). Lembro da Letícia chegar e me tranquilizar, trazer compressas, fazer massagens, me lembrar de comer (o que não consegui) enfim assumir a posição de anjo-doula-da-guarda. Pouco depois chegou Dr. André e em algum momento ele me pediu delicadamente para fazer o toque (o único do parto inteiro). Quando ele disse que eu já estava com 6cm de dilatação nem acreditei (eu realmente não acreditei, achei que ele estava querendo me animar). Serenamente, meu querido obstetra ainda disse que podíamos ficar em casa mais um pouco e eu adorei, se é pra sentir dor melhor que seja no conforto da nossa casa. Não tenho ideia de quanto foi esse “mais um pouco”, mas sei que em algum momento das contrações Dr. André se aproximou de mim e me disse para aceitar a dor, que meu filho estava vindo, me dando mais alguns momentos de calma em meio a tudo aquilo. E assim foi e logo logo estávamos caçando uma roupa para eu ir pro hospital.
No caminho do hospital já estava sentindo de leve a tal vontade de fazer força. E mesmo de leve posso dizer uma coisa, é impossível contrariar essa tal vontade, a coisa toda é de uma dimensão gigantesca. Lembro que Letícia perguntou o horário a João (ou foi o contrário?) e ele respondeu 21:20. Essa é a única lembrança de horário que tenho desde que cheguei a casa.
No hospital veio a parte mais difícil: o tal do expulsivo. Não consegui nem chegar ao chuveiro, quis de novo um lugar minimamente macio para me recostar. Subi na cama e fiquei, sei lá, meio de quatro, meio agachada, enfim, uma posição louca qualquer, na qual achei um mínimo de conforto. Mais pra frente Letícia sugeriu que eu ficasse de cócoras o que foi ótimo. Essa foi a parte do parto em que mais senti dor e, mesmo aí, em momento nenhum tive desejo de desistir, pedir anestesia ou cesárea. Eu estava ali porque queria e não duvidei que logo meu filho estaria comigo. Quando as dores, pareciam uma ardência, já estavam me cansando (nossa, como eu queria um descanso daquelas contrações, para onde tinham ido os intervalos?) eu finalmente senti a cabeça do meu bebê, aliás logo comecei a sentir ele fluindo e refluindo dentro de mim. Acho que isso não durou muito, talvez mais umas três forças, e ele nasceu (segundo me disseram, às 22:30). Lembro de ter ficado confusa por um momento, com a interrupção abrupta daquela dor e a invasão de um sentimento lindo e maravilhoso só de olhar para aquela coisinha toda melecada que era meu filho. Quando o tomei em meus braços me senti invadida por um amor infinito por meu menino e por uma confiança interminável simplesmente por tê-lo posto no mundo assim: da forma mais natural possível.
E aí foi isso: nasceu Francisco! Depois ainda tive que tomar uns pontinhos (achei os pontos mais doloridos que a maior parte do parto, juro) mas nada demais. Fiquei meio fraquinha também, não tinha comido quase nada o dia todo, durante o parto só consegui beber água mesmo. Mas nada que chegasse a embaçar a felicidade de ter dado a luz ao meu filho do jeito que eu quis. Até hoje quando estou com eles nos braços e penso no momento de seu nascimento me dá uma sensação de plenitude indescritível. Nada disso teria sido possível sem a equipe do Humanize Macaé, especialmente sem a querida doula Letícia e o querido obstetra André, que não satisfeitos por tudo que já tinha feito por mim ainda me fizeram companhia até de madrugada enquanto o marido ia comprar algo para a recém mamãe morta de fome.
Arrependimentos? Só um: não ter tirado uma foto com essa equipe linda que me acompanhou nesse momento tão inesquecível.
Ahhhh, e antes de terminar não podia deixar de falar dele né: o marido.João Paulo Manhães meu amor obrigada por me apoiar tanto, por não duvidar em momento nenhum, a sua confiança foi minha tranquilidade e minha paz durante todo o processo.
(por Juliana Mulatinho)