O meu olhar sobre HUMANIZAÇÃO... Modismo ou Necessidade?
Há muito venho refletindo sobre o processo de humanização do cuidado e baseando minhas atividades profissionais neste olhar. Segundo, o nosso querido Aurélio, “Humanizar” seria: 1. Dar condição humana a; humanar. 2. Civilizar. 3. Tornar-se humano; humanar-se. O movimento pró-humanização teve início em meados de 2000, como política pública de saúde, propondo uma revisão dos modelos de atenção à saúde e das práticas no SUS, indicando um caminho para a reformulação do modelo vigente na época. A Humanização se refere então à construção de um novo modo de relação entre usuários e trabalhadores do SUS e destes entre si. Volta-se para que os atendimentos tornem-se mais “Humanos”, visando a qualificação do cuidado, em sintonia com melhores condições de trabalho, desprecarização do atendimento, solicitando mais participação e implicação dos profissionais de saúde na gestão (gestão participativa), observando a capacidade singular de criação de cada sujeito componente da equipe de trabalho, tendo sempre em mente a melhoria do coletivo, modificando tudo que seja incoerente ao direito à saúde pertencente à todo cidadão brasileiro, com garantia de acesso universal e equitativo a ações integrais em saúde. Diante disto, o Ministério da Saúde lança em 2003 a Política Nacional de Humanização (PNH) sugerindo que se ponha de fato em prática os princípios do SUS no dia-a-dia dos serviços de saúde, de modo a tornar os mesmos serviços mais “humanos...”
Há muito venho refletindo sobre o processo de humanização do cuidado e baseando minhas atividades profissionais neste olhar. Segundo, o nosso querido Aurélio, “Humanizar” seria: 1. Dar condição humana a; humanar. 2. Civilizar. 3. Tornar-se humano; humanar-se. O movimento pró-humanização teve início em meados de 2000, como política pública de saúde, propondo uma revisão dos modelos de atenção à saúde e das práticas no SUS, indicando um caminho para a reformulação do modelo vigente na época. A Humanização se refere então à construção de um novo modo de relação entre usuários e trabalhadores do SUS e destes entre si. Volta-se para que os atendimentos tornem-se mais “Humanos”, visando a qualificação do cuidado, em sintonia com melhores condições de trabalho, desprecarização do atendimento, solicitando mais participação e implicação dos profissionais de saúde na gestão (gestão participativa), observando a capacidade singular de criação de cada sujeito componente da equipe de trabalho, tendo sempre em mente a melhoria do coletivo, modificando tudo que seja incoerente ao direito à saúde pertencente à todo cidadão brasileiro, com garantia de acesso universal e equitativo a ações integrais em saúde. Diante disto, o Ministério da Saúde lança em 2003 a Política Nacional de Humanização (PNH) sugerindo que se ponha de fato em prática os princípios do SUS no dia-a-dia dos serviços de saúde, de modo a tornar os mesmos serviços mais “humanos...”
Aí me vem a cabeça uma
enxurrada de questionamentos. Vamos ao primeiro: Em que momento então, esses
sujeitos se tornaram desumanos ao ponto de precisar de uma reformulação, e
quase a criação de leis que os incentivassem a se tornarem humanos novamente?
Quanto a essa questão,
penso: começamos a trabalhar em cadeia, num modo de produção industrial e
automático, onde esquecemos da subjetividade e complexidade de cada sujeito,
atendendo a todos de uma forma mecânica e igualitária, esquecendo
principalmente da visão holística do ser e sem se importar com o nosso
semelhante que veio em busca de solução para o seu problema de saúde. Repetimos
comportamentos aprendidos com colegas no dia-a-dia, sem questionar, apenas em
troca de nosso salário no fim do mês, sem estar de fato implicado naquela
engrenagem toda. Não olhamos para o ambiente em que estamos trabalhando, não
conservamos os nossos materiais de trabalho, desperdiçamos os insumos sem
pensar que o dinheiro público gasto para a aquisição daqueles, vem do nosso bolso
de contribuinte também. Falo “nós” por que me coloco no bolo, enquanto
profissional de saúde pública. Então alguém precisou acordar e falar: Cara,
isso aqui tá muito ruim! Não é assim que se trata alguém! Cadê a empatia? Não
sei se foi assim, mas algum gestor talvez tenha sentido na pele um atendimento
totalmente desumano para propor uma revisão dessas...
Avançando no estudo da
Política de Humanização, entramos na questão do Parto e Nascimento, onde existe
uma publicação interessantíssima que fala desta temática: O Caderno HumanizaSus
– Volume 4 – Humanização do Parto e do Nascimento. Todo o profissional de Parto
deveria ao menos ter um contato que seja com esse material, que acho bastante
importante. Sabemos que no SUS é que ocorre o maior índice de violência
institucional contra a mulher, nas diversas faixas etárias e de violência
obstétrica também. Sabemos de profissionais com comportamento extremamente
agressivos, num momento em que deveriam cuidar e acolher a parturiente. Aí
entra em campo a “Rede Cegonha” com o intuito de interferir mais diretamente
nessas práticas, sugerindo um modelo totalmente afetuoso de cuidado à mulher,
mas ainda com muita resistência entre os profissionais de saúde. Portanto,
vamos avançando a passos muito lentos no processo de Humanização do Parto e
Nascimento ainda no País, com algumas poucas, mas importantes iniciativas.
Aí me vem outras
questões: Em que momento a iniciativa privada se apropriou desta temática? E
para que? Será que a re-Humanização não deveria de fato acontecer em todo o
espaço terrestre? Onde a humanidade chegou para que perdêssemos a nossa
característica de HUMANOS?
Bom... a iniciativa
privada de apropriou da HUMANIZAÇÃO porque os serviços oferecidos
particularmente também estavam muito precarizados e de péssima qualidade. Agendas
de cesarianas vinculadas às necessidades dos médicos, pouca remuneração pelos serviços (o que não justifica um mal atendimento), pouco investimento na ambiência das unidades de saúde. Então, não exatamente
nessa ordem, surgem vários dispositivos de promoção do parto humanizado,
respeitoso. Vem o filme “O Renascimento do Parto” trazendo muitos
questionamentos ao modelo de nascimento privado. Vem uma galera de mulheres que
enfrentaram a realidade para se apropriarem de seus partos e se mostram super
interessadas em mudar essa realidade. E vem a ANS para interferir e engrossar o
coro de quem quer melhorar a assistência ao nascimento, promovendo o parto
normal, que é a melhor forma de nascer. E então vários profissionais de saúde
resolvem rever as suas práticas e modificar seu modo de trabalho. Porém, transformar
práticas de saúde exige mudanças no processo de construção dos sujeitos dessas
práticas, ou seja, mudanças em cada pessoinha que resolve trabalhar com saúde. A
mudança tem que ser de fato na HUMANIDADE. Repensar na saúde como uma recriação
de nós próprios, e de nossos modos de trabalhar, de viver e de se relacionar
com os outros e com o meio.
Aí chegamos a um ponto
crucial dessa história toda. “Para mudar o mundo primeiro é preciso mudar a
forma de nascer”, como diz meu amigo Michel Odent. E não é? Qual o objetivo
principal por trás de todo esse movimento por um parto respeitoso?
Ontem tivemos um
encontro de gestantes fabuloso, onde, o tema principal era “Humanização do
Parto: Necessidade ou modismo?” e outras vertentes oriundas da temática. O mais
lindo de tudo foi que a equipe discutiu em off, na tarde anterior pelo whatsapp
a temática, e só lançamos na página do evento, tarde da noite, tendo a
visualização de poucas pessoas, as quais não estiveram no evento. Chegamos lá,
nos apresentamos, e o assunto foi fluindo de encontro ao que tínhamos
previamente nos preparado! E depois conversando com equipe, foi tão bacana
perceber como os pensamentos se alinharam, e como as pessoas que nos procuram
vem com esse mesmo pensamento: “Para mudar o mundo primeiro é preciso mudar a
forma de nascer...” citando tio Michel de novo. Indo mais além, acrescento mais
algumas palavrinhas na frase linda e perfeita de Odent: Para mudar o mundo primeiro é preciso
mudar a forma de nascer, de maternar, de amar, de cuidar, de embalar, de
massagear, de se dedicar, de amamentar... e por aí vai... é preciso mudar o
jeito de educar nossas crianças. É preciso mais amor, mais afeto, mais carinho.
Porque quando alguém nos busca, busca nossa equipe, querendo mudar a forma de
seu filho nascer, com certeza não está pensando somente no seu bem estar, na
sua saúde e na saúde do seu filho. O desejo é contribuir de fato com a mudança
nos padrões existentes, no modelo de pessoas existentes, colocando pessoas
melhores no planeta. O buraco é bem mais em baixo. O desejo é por mudanças sim,
mas mudanças nos modos de relacionamento entre as pessoas... de mudanças no mundo,
mudanças em tudo. Portanto, humanização
não é modismo mesmo. A única coisa que não penso quando falo em humanização é
em modismo. Não é modismo. É necessidade...
por Daniela Lima - Fisioterapeuta e Doula - Equipe Humanize


