domingo, 1 de novembro de 2015

O meu olhar sobre HUMANIZAÇÃO... Modismo ou Necessidade?

Há muito venho refletindo sobre o processo de humanização do cuidado e baseando minhas atividades profissionais neste olhar. Segundo, o nosso querido Aurélio, “Humanizar” seria: 1. Dar condição humana a; humanar. 2. Civilizar. 3. Tornar-se humano; humanar-se. O movimento pró-humanização teve início em meados de 2000, como política pública de saúde, propondo uma revisão dos modelos de atenção à saúde e das práticas no SUS, indicando um caminho para a reformulação do modelo vigente na época. A Humanização se refere então à construção de um novo modo de relação entre usuários e trabalhadores do SUS e destes entre si.  Volta-se para que os atendimentos tornem-se mais “Humanos”, visando a qualificação do cuidado, em sintonia com melhores condições de trabalho, desprecarização do atendimento, solicitando mais participação e implicação dos profissionais de saúde na gestão (gestão participativa), observando a capacidade singular de criação de cada sujeito componente da equipe de trabalho, tendo sempre em mente a melhoria do coletivo, modificando tudo que seja incoerente ao direito à saúde pertencente à todo cidadão brasileiro, com  garantia de acesso universal e equitativo a ações integrais em saúde. Diante disto, o Ministério da Saúde lança em 2003 a Política Nacional de Humanização (PNH) sugerindo que se ponha de fato em prática os princípios do SUS no dia-a-dia dos serviços de saúde, de modo a tornar os mesmos serviços mais “humanos...”

Aí me vem a cabeça uma enxurrada de questionamentos. Vamos ao primeiro: Em que momento então, esses sujeitos se tornaram desumanos ao ponto de precisar de uma reformulação, e quase a criação de leis que os incentivassem a se tornarem humanos novamente?
Quanto a essa questão, penso: começamos a trabalhar em cadeia, num modo de produção industrial e automático, onde esquecemos da subjetividade e complexidade de cada sujeito, atendendo a todos de uma forma mecânica e igualitária, esquecendo principalmente da visão holística do ser e sem se importar com o nosso semelhante que veio em busca de solução para o seu problema de saúde. Repetimos comportamentos aprendidos com colegas no dia-a-dia, sem questionar, apenas em troca de nosso salário no fim do mês, sem estar de fato implicado naquela engrenagem toda. Não olhamos para o ambiente em que estamos trabalhando, não conservamos os nossos materiais de trabalho, desperdiçamos os insumos sem pensar que o dinheiro público gasto para a aquisição daqueles, vem do nosso bolso de contribuinte também. Falo “nós” por que me coloco no bolo, enquanto profissional de saúde pública. Então alguém precisou acordar e falar: Cara, isso aqui tá muito ruim! Não é assim que se trata alguém! Cadê a empatia? Não sei se foi assim, mas algum gestor talvez tenha sentido na pele um atendimento totalmente desumano para propor uma revisão dessas...

Avançando no estudo da Política de Humanização, entramos na questão do Parto e Nascimento, onde existe uma publicação interessantíssima que fala desta temática: O Caderno HumanizaSus – Volume 4 – Humanização do Parto e do Nascimento. Todo o profissional de Parto deveria ao menos ter um contato que seja com esse material, que acho bastante importante. Sabemos que no SUS é que ocorre o maior índice de violência institucional contra a mulher, nas diversas faixas etárias e de violência obstétrica também. Sabemos de profissionais com comportamento extremamente agressivos, num momento em que deveriam cuidar e acolher a parturiente. Aí entra em campo a “Rede Cegonha” com o intuito de interferir mais diretamente nessas práticas, sugerindo um modelo totalmente afetuoso de cuidado à mulher, mas ainda com muita resistência entre os profissionais de saúde. Portanto, vamos avançando a passos muito lentos no processo de Humanização do Parto e Nascimento ainda no País, com algumas poucas, mas importantes iniciativas.

Aí me vem outras questões: Em que momento a iniciativa privada se apropriou desta temática? E para que? Será que a re-Humanização não deveria de fato acontecer em todo o espaço terrestre? Onde a humanidade chegou para que perdêssemos a nossa característica de HUMANOS?
Bom... a iniciativa privada de apropriou da HUMANIZAÇÃO porque os serviços oferecidos particularmente também estavam muito precarizados e de péssima qualidade. Agendas de cesarianas vinculadas às necessidades dos médicos, pouca remuneração pelos serviços (o que não justifica um mal atendimento), pouco investimento na ambiência das unidades de saúde. Então, não exatamente nessa ordem, surgem vários dispositivos de promoção do parto humanizado, respeitoso. Vem o filme “O Renascimento do Parto” trazendo muitos questionamentos ao modelo de nascimento privado. Vem uma galera de mulheres que enfrentaram a realidade para se apropriarem de seus partos e se mostram super interessadas em mudar essa realidade. E vem a ANS para interferir e engrossar o coro de quem quer melhorar a assistência ao nascimento, promovendo o parto normal, que é a melhor forma de nascer. E então vários profissionais de saúde resolvem rever as suas práticas e modificar seu modo de trabalho. Porém, transformar práticas de saúde exige mudanças no processo de construção dos sujeitos dessas práticas, ou seja, mudanças em cada pessoinha que resolve trabalhar com saúde. A mudança tem que ser de fato na HUMANIDADE. Repensar na saúde como uma recriação de nós próprios, e de nossos modos de trabalhar, de viver e de se relacionar com os outros e com o meio.
Aí chegamos a um ponto crucial dessa história toda. “Para mudar o mundo primeiro é preciso mudar a forma de nascer”, como diz meu amigo Michel Odent. E não é? Qual o objetivo principal por trás de todo esse movimento por um parto respeitoso?

Ontem tivemos um encontro de gestantes fabuloso, onde, o tema principal era “Humanização do Parto: Necessidade ou modismo?” e outras vertentes oriundas da temática. O mais lindo de tudo foi que a equipe discutiu em off, na tarde anterior pelo whatsapp a temática, e só lançamos na página do evento, tarde da noite, tendo a visualização de poucas pessoas, as quais não estiveram no evento. Chegamos lá, nos apresentamos, e o assunto foi fluindo de encontro ao que tínhamos previamente nos preparado! E depois conversando com equipe, foi tão bacana perceber como os pensamentos se alinharam, e como as pessoas que nos procuram vem com esse mesmo pensamento: “Para mudar o mundo primeiro é preciso mudar a forma de nascer...” citando tio Michel de novo. Indo mais além, acrescento mais algumas palavrinhas na frase linda e perfeita de Odent: Para mudar o mundo primeiro é preciso mudar a forma de nascer, de maternar, de amar, de cuidar, de embalar, de massagear, de se dedicar, de amamentar... e por aí vai... é preciso mudar o jeito de educar nossas crianças. É preciso mais amor, mais afeto, mais carinho. Porque quando alguém nos busca, busca nossa equipe, querendo mudar a forma de seu filho nascer, com certeza não está pensando somente no seu bem estar, na sua saúde e na saúde do seu filho. O desejo é contribuir de fato com a mudança nos padrões existentes, no modelo de pessoas existentes, colocando pessoas melhores no planeta. O buraco é bem mais em baixo. O desejo é por mudanças sim, mas mudanças nos modos de relacionamento entre as pessoas... de mudanças no mundo, mudanças em tudo.  Portanto, humanização não é modismo mesmo. A única coisa que não penso quando falo em humanização é em modismo. Não é modismo. É necessidade...

por Daniela Lima - Fisioterapeuta e Doula - Equipe Humanize


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